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HERÓIS E DIVINDADES DA
MITOLOGIA GREGA E ROMANA NO CANTO IX
ACTÉON - Este jovem tebano, filho do pastor Aristeu e de Autónoe,
tomara-se, graças aos conselhos esclarecidos do centauro Quíron, um dos mais
peritos caçadores da sua região. Mas a sua vaidade foi-lhe, um dia, fatal. Ele
gabou-se, de facto, de ultrapassar Ártemis, deusa dos feitos cinegéticos, e de
ser mais hábil do que ela. Um dia, quando perseguia uma peça de caça, nas
montanhas de Citéron, surpreendeu Ártemis, que se banhava. Irritada já pela sua
insolência, ela não lhe perdoou mais esta falha e, depois de o ter transformado
em veado, ele foi, a seu mando, devorado pelos cinquenta cães que o
acompanhavam. Estes, ( segundo alguns mitógrafos representam os cinquenta dias
durante os quais a vegetação, de que Acteon é um dos emblemas, deixa totalmente
de viver.
ADÓNIS – O mito de Adónis é originário da Síria. Antes de chegar à
Grécia, sofreu modificações no Egipto e em Chipre. Filho de Cíniras, rei de
Chipre, e de Mirra, transformada em árvore da mirra, Adónis foi reconhecido por
Afrodite, que o confiou a Perséfone. A rainha dos Infernos apaixonou-se pelo
jovem e recusou-se a devolvê-lo. Afrodite, a quem Adónis também não deixava
indiferente, lamentou-se, junto de Zeus, e o deus dos deuses decidiu que Adónis
seria confiado a Perséfone um terço do ano.
ANQUISES - Ele possui o privilégio de ser o pai de Eneias, fruto de seus
amores com Afrodite. Mas esta última tinha ordenado a Anquises que não revelasse
a sua união. Ora, Anquises, perturbado por numerosas libações, cometeu a
indiscrição de revelar a sua felicidade. Zeus, para o castigar, atingiu-o com um
golpe do seu raio. Segundo uns, ele não teria recebido senão um pequeno
ferimento; para outros, ele teria ficado coxo e cego. Parente de Príamo,
Anquises encontrava-se em Tróia com seu filho no momento da tomada desta cidade.
Idoso e entrevado, teria encontrado uma morte certa, se Eneias não tivesse
carregado com ele até ao navio, no qual puderam fugir. Mas Anquises não devia
atingir o Lácio. Morreu ao largo da Sicília e foi enterrado junto do monte Érice.
APOLO - Uma das doze grandes divindades do Olimpo, Apolo nasceu em Delos,
onde sua mãe, seduzida por Zeus, veio refugiar-se para escapar ao furor ciumento
de Hera. Apolo teve uma irmã gémea, Ártemis, com a qual é, muitas vezes,
representado nas lendas.
Desde que soube do seu nascimento, Zeus ofereceu ao filho uma mitra de ouro, uma
lira e um carro puxado por cisnes. Alimentado com néctar pela deusa Témis, o
recém-nascido tornou-se, em alguns dias, um magnífico adolescente, que partiu,
no seu carro, munido de um arco e de flechas, para o país dos Hiperbóreos.
Depois de aí ter ficado um ano, voltou a Delfos e começou a sua carreira.
Distinguiu-se, de facto, não longe desta cidade, matando a serpente Píton, que
vivia numa caverna do monte Parnaso. Mas os seus amores são ainda mais célebres.
De radiante beleza, grande estatura, seduziu numerosas ninfas, como Corónis, que
lhe deu um filho, Asclépio, que Zeus em cólera fulminou. Apolo, para se vingar
do deus soberano, atingiu e matou, com as suas flechas, os Ciclopes que tinham
forjado o raio. Irritado com tanta presunção, Zeus expulsou então Apolo do
Olimpo. Conhecem-se outros amores deste deus: ele amou a ninfa Dafne que, para
lhe escapar, foi transformada em loureiro; seduziu a ninfa Clítia, filha de
Oceano, e transformou-a em heli6tropo, quando, abandonada, ela revelou ao pai de
Leuctoe, sua rival, os novos amores do divino amante. Durante a sua estadia na
terra, Apolo encontrou uma agradável hospitalidade junto do rei Admeto, de quem
guardou o rebanho. É por isso que o deus passava muitas vezes por ser o
protector dos animais. Quando o seu eX11io terreno acabou, ele teve a permissão
de voltar ao Olimpo. Os Gregos multiplicaram-lhe os atributos e conferiram-lhe,
por vezes, um carácter funesto. É assim que ele é olhado como o deus do Castigo
fulminante. Todas as mortes súbitas são resultado dos ferimentos que provoca com
os seus golpes. Por vezes, ele condena a humanidade a uma morte mais lenta, e
mais horrível ainda, enviando-lhe a peste. No entanto, Apolo é, antes de tudo,
aos olhos dos Gregos, um deus amável e o chefe das profecias e da adivinhação: A
Pítia fala em seu nome; inspirador de músicos e poetas, ele é então chamado
Apolo Musageta, a divindade tutelar de todas as artes, o símbolo do Sol e da luz
civilizadora. Pode dizer-se, sem contradição, que Apolo reflecte, para os
Gregos, o génio artístico do seu país, o ideal da juventude, da beleza e do
progresso.
BACO - Divindade romana do Vinho e da Vinha, do Deboche e da
Licenciosidade, Baco, assimilado a Dionísio, não teve um papel importante na
religião romana. Foi, essencialmente, venerado por um número restrito de
iniciados, que se entregavam, durante os mistérios, as Bacanais, a orgias de que
o Senado tentou combater as desordens a que davam lugar.
CÍBELE - Esta divindade da Frigia é, sem dúvida, a maior deusa do próximo
Oriente antigo. Importada para a Grécia e para Roma, ela personifica, sob nomes
esta diferentes, -Grande Mãe, Mãe dos deuses, Grande Deusa - a força vegetativa
e selvagem da natureza. É contada entre o número das divindades da fertilidade e
partilha, com Júpiter, na religião romana, o poder soberano sobre a reprodução
das plantas, dos animais, dos deuses e dos homens. Desloca-se num carro puxado
por leões, símbolo da força, e tem uma chave que abre a porta da Terra, onde
estão fechadas as riquezas; na cabeça, pelo menos jade na iconografia romana,
sustenta pequenas torres, que representam as cidades que ela protege. Não se lhe
conhece outra lenda a não ser a que relata os amores desta com Atis e que estão
na origem dos mistérios orgíacos e órficos da ressurreição.
CICNO - O mais antigo dos numerosos Cicnos da mitologia aparece durante a
guerra de Tróia. É considerado invulnerável, pois fora gerado por Posídon.
Aquiles conseguiu, no entanto, matá-lo. O pai transformou-o depois em cisne. Um
outro Cicno, rei da Ligúria, chorou tanto a morte do amigo Faetonte, fulminado
por Zeus, que Apolo, comovido, o transformou em cisne. O seu grito plangente
lembra os gemidos do herói inconsolável. O mais conhecido, porém, é Cicno, o
filho de Apolo. Tinha o costume de submeter os amigos a provas diversas, para se
assegurar da sua fidelidade. Muitos se desencorajavam recusando a amizade de uma
pessoa tão estranha e exigente. Só Filio, por amor a Cicno, conseguiu, com a
ajuda de Héracles, abater muitos monstros e domar um touro furioso. Mas logo se
fatigou e se afastou do amigo. Cicno, desesperado com o abandono dos amigos,
atirou-se, junto com a mãe, a um lago. Apolo transformou-os em cisnes. Filho de
Ares e de Pelópia, um outro Cicno atacava os viajantes que se deslocavam a
Delfos e roubava-lhes as oferendas destinadas a Apolo. Foi morto por Héracles em
combate singular .
CINIRAS - Rei da ilha de Chipre e , sacerdote de Afrodite, Cíniras deu
uma importância particular ao culto da deusa. Filho de ApoIo, segundo uma das
versões, ele foi um dos grandes civilizadores do seu reino; introduziu nele as
artes agrícolas, musicais, artísticas e domésticas. Desprezava a guerra e não
quis participar na expedição de Tróia. Ofereceu, no entanto, aos Gregos, um
único barco e ao rei Agamémnon uma armadura. Por ter tido involuntariamente
relações incestuosas com a própria filha, Esmima, ou Mirra, mãe de Adónis, teve
de se exilar. Segundo uma outra lenda, Adónis teria nascido da união de Cíniras
com a filha de um outro rei de Chipre.
CLÓRIS - Esta filha de Anfíon e de Níobe foi, tal como o seu irmão
Amiclas, poupada por Apolo e Ártemis quando os deuses, irritados, se vingaram
cruelmente dos seus irmãos e irmãs para punirem a mãe. Ela devia mais tarde
casar com Neleu, pai de Nestor.
CUPIDO - Bem mais do que o Eros grego, com o qual acabou por se
confundir, Cupido, auxiliar de Afrodite, é a personificação do mais vivo desejo
amoroso. Apuleio conta-nos a história de Psique, amada pelo deus, narração que
testemunha a perseverança de que Cupido faz prova, quando possuído pela paixão.
DELOS - Esta ilha surgiu do mar em consequência de um golpe do tridente
de Posídon. Ela acolheu Leto que sobre ela deu à luz Apoio e Ártemis. Para
agradecer à ilha o ter consentido prestar refúgio aos filhos divinos, Zeus
fixou-a no centro do arquipélago das Cíclades. Tornou-se, depois, sede do culto
de Apoio. Era aí que se celebravam jogos, os Délios, que foram, diz-se,
instituídos por Teseu. Por fim, todos os quatro anos havia uma delegação
ateniense que vinha à ilha para venerar de modo especial o deus que aí nascera.
DIANA. Esta antiga divindade itálica, logo identificada com a Ártemis
grega tinha sido introduzida, segundo alguns, em Roma pelo rei lendário Sérvio
Túlio. As lendas romanas de Diana foram todas tiradas dos mitos gregos. Diz-se
que Orestes teria trazido para Itália, para Némi, a Ártemis de Táuris. Na
vizinhança desta cidade do Lácio encontrava-se, de facto, um lago, um bosque
sagrado e um templo dedicado a Diana. Praticavam-se, em honra da deusa,
sacrifícios humanos. Cada sacerdote devia matar o seu predecessor para poder
suceder-lhe. Contava-se também que Hipólito, ressuscitado por Asclépio, tinha
sido raptado por Artemis e transportado para Itália, onde passara a chamar-se
Vírbio, para se consagrar inteiramente ao culto da divina raptora. No entanto,
para os Romanos, Diana não é tanto, como Artemis, a deusa caçadora (embora ela
tenha tomado desta o arco e a aljava), mas antes a irmã de Apolo, isto é, a
deusa da luz.
DIONE - Uma das divindades do início dos tempos, Dione era filha de
Oceano e de Tétis, ou de Crono e Geia. Foi amada por Zeus e deu à luz Afrodite.
É também considerada esposa de Tântalo, de quem teve Níobe e Pélops.
ENEIAS - Pertencente ao sangue real de Dárdano e familiar de Príamo, rei
de Tróia, de quem tomou a filha Creúsa como esposa, Eneias era o filho de An-
quises e de Afrodite. Criado nos bosques pelas Ninfas e pelo centauro Quíron,
Eneias não tomou parte no começo da guerra de Tróia; entretanto, um dia, quando
guardava os rebanhos, foi atacado por Aquiles, que lhe roubou uma parte do gado.
Eneias refugiou-se então em Lirnesso e, perseguido por Aquiles, teve de
abandonar, sob a protecção de Zeus, esta cidade e dirigir-se para Tróia, onde se
juntou às fileiras dos guerreiros troianos. Durante esta longa guerra, Eneias
foi um herói corajoso, sábio e piedoso. Sabia pagar com a própria vida, mas,
muitas vezes, em situações perigosas, recorreu à protecção dos deuses,
nomeadamente quando enfrentou Aquiles : Posídon, vendo-o em perigo de morte,
arrebatou-a numa nuvem aos olhos do inimigo.
Na altura da destruição de Tróia e da extinção da raça de Príamo, Eneias,
segundo uma tradição antiga, ter-se-ia retirado para o monte Ida, juntamente com
o pai, o filho e alguns companheiros, onde teria fundado o novo reino da Tróada.
No entanto segundo tradições mais recentes, universalizadas por Virgílio na
Eneiga, Eneias fugiu de Tróia levando consigo o pai Anquises, cego e paralítico,
às costas, e Ascânio, seu filho, pela mão; levava também os deuses da cidade -os
Penates -, bem como o Paládion. Reuniu alguns companheiros sobre o monte Ida e
embarcou em direcção às Hespérides, o Ocidente desconhecido. Durante um périplo
movimentado estabeleceu sólidos laços de amizade com o piloto do navio, Palinuro;
com Acates, cuja fidelidade se tornou proverbial, e muitos outros troianos. Fez
escala na Trácia, passou por Delos, depois chegou a Creta. Durante mais de sete
anos andou errante sobre o mar à procura de uma costa e enfrentou as tempestades
e a cólera das divindades, em particular a de Hera. Quase a atingir as costas de
Itália, depois de ter feito escala na Sicília, em Drépano, onde morreu o velho
Anquises, os navios de Eneias foram arremessados bruscamente por uma tempestade
contra as costas de África, junto de Cartago. A rainha Dido, a fundadora de
Cartago, acolheu o herói e apaixonou-se por ele. Mas os deuses não desejavam o
casamento entre Dido e Eneias; Zeus ordenou então a este que voltasse para as
costas da Sicília, onde foi recebido pelo rei Acestes. Chegando, por fim, às
costas da Itália, a Cumas, desceu aos Infernos guiado pela Sibila. Depois, de
novo entre os vivos, dirigiu-se para o Lácio. Lá, depois de concluída uma
aliança com Evandro, combateu e matou Turno, chefe dos Rútulos, afim de obter a
mão de Lavínia, a filha do rei Latino. É com esta vitória que termina o poema de
Virgílio. Os historiadores romanos contaram a fundação de Lavínio por Eneias,
bem como a de Alba-Longa por Ascânio, e o nascimento lendário de uma pequena
nação chamada a dominar o mundo, tal como havia predito o deus Fauno.
FAETONTE - "Aquele que brilha": tal é o sentido da palavra grega. Este
filho de Sol e da oceânide Clímene gostava de se vangloriar, junto dos
companheiros, da sua origem divina e, cada dia, mostrava-lhes, com orgulho, o
percurso do carro de seu pai nos céus. Entretanto, um deles desafiou-o para que
provasse a sua ascendência solar. Assim provocado, Faetonte foi ter com o pai e
pediu-lhe um sinal do seu nascimento. O Sol jurou pelo Estige que lhe concederia
tudo o que pedisse. Faetonte pediu-lhe então o carro e o direito de o conduzir
durante um dia. Horrorizado, pois nenhum mortal tem força suficiente para
dominar os cavalos que puxam o carro, "o Sol tentou dissuadir o filho; mas sem
conseguir. Cheio de vaidade, Faetonte não escutou as súplicas do pai que, preso
pelo próprio juramento, foi obrigado a submeter-se. Os cavalos fogosos
lançaram-se na corrida. Ora, como o Sol previra, Faetonte não foi longe na
demonstração: os cavalos deixaram de responder ao seu comando e o carro seguia
um caminho desordenado: ora subia demasiado e quase queimava a estrada celeste
ou colidia com as constelações, ora descia demasiado e as montanhas
incendiavam-se, os rios transformavam-se em vapor e a terra abria fendas sob o
calor escaldante. Para evitar a destruição do universo, Zeus fulminou o filho do
Sol, despedaçou o carro e Faetonte foi precipitado no rio Erídano.
FAUNA - Esta esposa de Fauno, considerada pelos Latinos como mãe do deus
Latino, um dos reis lendários do Lácio, protege as mulheres contra a
esterilidade.
FLORA - Adorada pelos Sabinos, Flora era a divindade das flores e da
Primavera. Para explicar esta atribuição, Ovídio ligou Flora a um mito grego e
assimilou-a à ninfa Clóris, que Zéfiro desposou concedendo-lhe todos os poderes
sobre O desabrochar primaveril. Sempre segundo Ovídio, ela teria oferecido a
Juno uma flor que, ao ser tocada, tinha o poder de tomar uma mulher fecundada.
Deste modo, Juno, sem a ajuda de Júpiter, tomou-se mãe de Marte. É em lembrança
deste nascimento, ao qual Flora teria indirectamente participado, que os Romanos
concederam o nome de "Março" ao primeiro mês da Primavera.
HÉRCULES - Transposição latina de Héracles, Hércules tomou, do seu modelo
grego, quase todas as lendas. Entretanto, os escritores romanos
acrescentaram-lhe alguns suplementos. Foi assim que Hércules espancou o gigante
Caco e matou o rei Fauno, que tinha o temível hábito de massacrar os
estrangeiros que se aventurassem a pisar terra sua. Por fim, Hércules foi
recebido, com benevolência, pelo rei Evandro, que fundou, em sua honra, um
santuário em Roma. Menos temível que Héracles, ele tem como atributo a lira e
acompanha, muitas vezes, o cortejo das Musas e de Apolo Musageta.
NEPTUNO - Identificado com Posídon numa data relativamente antiga,
Neptuno perdeu, pouco a pouco, o seu carácter itálico; mas aproveitou, em troca,
os mitos que concernem ao seu homólogo grego. É certo que Neptuno, na religião
primitiva dos povos do Lácio, não foi o deus do mar. Estas nações, de facto,
dedicavam-se à agricultura; ao contrário dos Gregos, cuja economia se fundava
essencialmente no comércio marítimo. Neptuno era, aos olhos dos Latinos, uma
divindade da Humidade. As Neptunalia celebravam-se em sua honra, na época dos
grandes calores de Julho, debaixo de abrigos de folhagem que dispensavam uma
certa frescura, e onde era possível encontrar a própria essência do deus
Neptuno.
NEREIDES - Divindades marinhas, filhas de Nereu e de Dóris, as cinquenta
Nereides eram, de algum modo, as ninfas do Mediterrâneo. Habitavam no fundo do
mar, num palácio luminoso, e distraíam o pai com cantos e danças. Tinham cada
uma sua forma, com um aspecto particular da superfície das águas, e apareciam
muitas vezes como criaturas magníficas, meio mulheres meio peixes, misturando-se
nas vagas e nas algas, montadas sobre os Tritões ou cavalos marinhos. São-lhe
atribuídas poucas lendas. No entanto, algumas delas foram célebres, como
Anfitrite, esposa de Posídon, Oritia, Galateia, Tétis, esposa de Peleu e mãe de
Aquiles.
NEREU - Este deus marinho, muito antigo, anterior mesmo a Posídon,
distingue-se do grande deus do mar pelo seu carácter simultaneamente justo,
ponderado e pacífico. Filho de Ponto e de Geia, marido da oceânide Dóris e pai
das cinquenta Nereides, Nereu é representado com os traços de um ancião, cuja
imagem aparece sobre o mar, nas rugas das águas, entre o branco fervilhar das
ondas de espuma. O seu império estende-se particularmente às ondas do mar Egeu.
Mora no fundo de uma gruta cheia de luz. Sai, no entanto, muitas vezes do seu
luxuoso refúgio para se manifestar aos olhos dos mortais e lhes anunciar o
futuro. Foi deste modo que indicou a Héracles o caminho que deveria tomar para
chegar ao jardim das Hespérides. Foi ele também quem advertiu Páris dos males
que ameaçariam a sua pátria se Helena fosse raptada.
NINFAS - Sob este nome muito genérico, os Gregos agrupam todas as
divindades femininas da natureza que povoam os mares, as águas, os bosques, as
árvores, as florestas, as montanhas, os vales férteis, as nascentes, os
arvoredos, os rochedos e as grutas. Jovens mulheres de rara beleza,
representadas nuas ou semi-nuas, elas eram filhas de Zeus e do Céu. A chuva que
o deus fazia cair brotava de novo em nascentes e dava-lhes então origem. Do
mesmo modo, os Antigos atribuíam às Ninfas um poder fertilizante e alimentador,
que elas exerciam enquanto misturadas com a humidade do ar, da água e das
florestas. Mas a sua acção benfazeja não dizia apenas respeito à natureza. Os
seres humanos, por seu lado, também beneficiavam da tema solicitude desses
seres. Elas protegem os noivos, que mergulham na água de certas nascentes ou
fontes para aí obterem a purificação indispensável a uma fecundidade feliz. A
este carácter regenerador, particularmente apreciado pelos Gregos, juntavam-se
dois atributos: as Ninfas gostam de profetizar e são mesmo capazes de inspirar,
aos homens que provam da água sagrada das suas nascentes, pensamentos nobres e o
desejo de realizar grandes feitos. Elas revelam-lhes também o desenlace,
favorável ou nefasto, das suas doenças. Chegam até a curar os humanos de seus
males por acção de algumas das suas águas.
Na mitologia grega, as Ninfas são ordenadas e classificadas com precisão: as
Nereides povoam os mares; as Náiades, os rios, e, de um modo especial, as águas
vivas; as Dríades, as florestas de carvalhos; as Alseides, as matas. Quanto às
Oréades, elas habitam as montanhas; e as Hamadríades, os bosques. As Napeias
ocupam os vales; e as Melíades só vivem sobre os freixos. As inumeráveis lendas
onde as Ninfas intervêm mostram-nas, não só apaixonadas pelos deuses, mas também
por simples mortais. Da sua união com estes últimos, nasceram os heróis, os
semi-deuses, os antepassados das primeiras raças humanas. Indolentes, afiar e a
cantar sobre as ondas e nas árvores, apesar de mortais, elas vivem milhares de
anos. São as fadas da Antiguidade.
PARCAS - As três Parcas que tinham o aspecto de fiadoras presidiam, na
antiga religião romana, a primeira ao nascimento, a segunda ao casamento e a
terceira à morte. Também chamadas Tria Fata, "os três destinos", imagens temidas
do Fado, do Destino a que está ligada toda a vida, elas foram, logicamente
assimiladas, pelos Romanos, às severas Moiras gregas. Tomaram os nomes latinos
de Nona, Décima e Morta.
POMONA - De origem etrusca, esta ninfa das flores e dos frutos, anexada
pela religião romana, foi cantada pelos poetas que lhe atribuíam numerosos
amores com as divindades agrestes e rústicas, nomeadamente com Pico, Silvano e
Vertumno. Ovídio conta-nos que ela foi esposa deste último, e que a recíproca
fidelidade imortal lhes permitiu envelhecer e rejuvenescer, sem cessar, à imagem
do ciclo das estações e da maturação das plantas e dos frutos. Sentada sobre um
grande cesto de flores e de frutos, Pomona segura algumas maçãs e Um ramo. Os
poetas cantam-na coroada de parras e de uvas, enquanto ela derrama frutos que
brotam de um como da abundância.
TÉTIS
1º- (Téthis) Filha de Úrano e de Geia, Tétis ocupa um dos primeiros lugares
entre as divindades primordiais da Grécia. O seu nome significa "alimentadora".
Ela é um símbolo da fecundidade das águas. Unida a Oceano, deu origem às
Oceânides e a uma abundante multidão de nascentes e de fontes, assegurando,
assim, à natureza, a humidade benéfica e necessária.
2º- (Thétis) Filha de Nereu e de Dóris, Tétis é, sem dúvida, a mais célebre das
Nereides. Assinalou-se, desde a mais tenra idade, pela sua doçura e pelo seu
sentido de hospitalidade. Acolheu Hefesto, que fora precipitado do Olimpo por
Zeus irritado. Não aceitou ter por marido Zeus, pois não queria afligir Hera que
tinha sido a sua ama. Mas diz-se também, a este propósito, que Posídon e Zeus
abandonaram Tétis, ao saber que a Nereide daria à luz um filho mais poderoso que
seu pai. Peleu, um mortal, pôde assim desposar a divindade marinha que, para lhe
escapar, tinha tomado todas as formas possíveis, mas que, por fim, teve de
submeter-se. Os esponsais de Tétis e Peleu foram honrados com a presença de
todos os deuses que lhes trouxeram presentes. Mas a deusa Discórdia, que não
fora convidada, atirou para o meio da assembleia em festa a famosa maçã, origem
de muitos males. De Peleu, Tétis teve um filho, o grande Aquiles, que ela educou
com amor. Para o tomar insensível a todo o ferimento, ela mergulhou-o no Estige.
Como o segurava pelo calcanhar, este era a sua parte vulnerável. A mãe bem
tentou subtraí-lo à guerra de Tróia e escondeu-o na corte de Licomedes, rei de
Ciros. Quis também evitar-lhe os golpes mortais oferecendo-lhe uma armadura
forjada por Hefesto. Ela aconselhou-o, por fim, a não combater, mas em vão.
Quando o filho morreu, ela transportou toda a sua afeição para Neoptólemo, seu
neto, e salvou-lhe a vida pedindo-lhe que não voltasse imediatamente à pátria,
logo após a queda de Tróia. Deste modo, Neoptólemo escapou à grande tempestade
que destruiu a frota grega.
VÉNUS. Antiga divindade itálica de menor importância, V é nus protegia,
originalmente, as hortas, assegurando a fecundação das flores e a maturação das
plantas. A partir do segundo século a.C., ela foi assimilada pela deusa grega
Afrodite, de quem tomou os caracteres, as lendas e os atributos: adquiriu uma
autoridade notável no culto romano. No século primeiro, César, que fazia
remontar a origem da sua fam11ia à gens Iulia, a Eneias, filho de Anquises e de
Vénus, fixou o culto da sua "antepassada". Os Romanos consagraram à deusa o mês
de Abril, época em que se manifesta, em toda a natureza, o renascer do amor.
VULCANO. Como a maior parte dos deuses primitivos romanos, Vulcano perdeu
o seu carácter indígena quando os deuses gregos invadiram o Panteão romano. De
origem longínqua, certamente etrusca, tem o seu lugar em algumas lendas como as
de Rómulo e de Tito Tácio, o Sabino. Vulcano era originalmente venerado como um
grande deus. Deus do fogo -este fogo de que todas as mitologias fizeram o
elemento primordial do mundo -, Vulcano foi assimilado por Hefesto e reduzido ao
simples estado de deus-ferreiro, que forja e fabrica as armas dos deuses nas
crateras dos vulcões da Itália do Sul.
ZÉFIRO. Conhecido pelos Romanos sob o nome de Favónio, o Zéfiro,
personificação divina do vento de leste, traz a frescura e a chuva benéficas aos
climas nebulosos da Itália. Jovem alado, percorre docemente o espaço e anuncia a
húmida Primavera. Uniu-se a Clóris, deusa da vegetação nova, que gerou um filho,
Carpo, o Fruto. Como todos os deuses, Zéfiro manifesta, por vezes, a sua cólera.
Conta-se, a este propósito, que, ciumento da afeição que Apolo dedicava a
Jacinto, um dos seus companheiros, quando treinava o lançamento do disco, Zéfiro
desviou, com um sopro poderoso, a placa de metal e esta, atingindo Jacinto na
fronte, matou-o imediatamente.
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