|
DO AMOR
Maria Adelaide Silva / Cláudia Luís
Professoras de Português
“Assim Vénus propôs...” (Canto IX, estrofe 43)
Assim te propomos...
A leitura do Canto IX deixa aberta e livre a possibilidade de fazer várias
abordagens textuais, permitindo interrogar os vários sentidos propostos pela
palavra.
Optámos por escolher os caminhos que nos levaram até ao Amor – à ideia de
Felicidade – essa utopia Universal e Intemporal, mobilizadora de Homens e
Deuses.
Reflectimos, por vontade, na relação dos elementos significativos que,
artisticamente, teceram a construção do Lugar Feliz “locus amoenus”
indissociável da ideia de Homem Feliz.
A Ilha dos Amores, esse Espaço/ Tempo, obra dos deuses por amor aos homens
mereceu a nossa procura e ao seu encontro questionámos os caminhos da
felicidade, a essência existencial do Amor.
No contexto da viagem, acção central do poema épico “Os Lusíadas” se inscrevem
os percursos reflexivos decorrentes da dimensão da viagem pessoal e interpessoal
desejada.
Os navegadores portugueses “passaram ainda além da Taporbana / em perigos e
guerras esforçados / mais do que prometia a força humana/ e entre gente remota
edificaram/ novo reino que tanto sublimara” (Canto I, estrofe 1).
Os navegadores portugueses cumpriram a viagem
de conhecimento e descoberta do caminho marítimo para a Índia, aproximando
gentes, culturas e memórias. Os navegadores portugueses “por obras valerosas”
pelo trabalho imenso que se chama/ caminho da virtude, alto e fragoso/ foram
compensados na Ilha dos Amores “doce, alegre e deleitosa” (Canto IX, estrofe 90)
a qual constitui a promessa de uma compensação absoluta do esforço e mérito
humanos, por proposta de Vénus.
A divinização dos heróis é a conclusão para que aponta a intriga mitológica:
os portugueses – ao longo da aventura que constitui o núcleo narrativo – são
favorecidos por Vénus e hostilizados por Baco. Os homens tornam-se deuses e
apeiam do pedestal as antigas divindades. No Canto IX, o recebimento dos nautas
pelas ninfas significa, entre outras coisas, a confirmação dos receios de Baco:
de facto, os navegantes cometeram actos tão grandiosos que se tornam amados por
deusas; e, de certo modo, divinizam-se eles também. Aqui temos um mito
construído com elementos da cultura greco-latina, mas elaborado para o efeito
específico que Camões visa. Este efeito desejado pelo poeta é o de imortalizar
os heróis através de um acontecimento nuclear, a viagem de Vasco da Gama à
Índia.
Almeida, Porto
Os navegantes portugueses são recebidos e homenageados num ambiente
paradisíaco, idealizado pelos deuses à mercê dos humanos, divinizados e
imortalizados por via do Amor.
“Assim aparece um quadro idílico, formado por uma Natureza belíssima e cheia de
atractivos: o doce murmúrio das águas, o cantar dos pássaros, os variados
sabores dos frutos, o perfume das flores, a amenidade, a frescura e o
recolhimento de um bosque, a verdura repousante de um porto seguro. E neste
ambiente – sem metáfora – paradisíaco, o amor torna-se de repente possível, um
amor total feito de sensualidade e galanteria, de desejo e de paixão pela
beleza. Nada o ensombra: decepções, receios, insatisfação, pecado, remorsos
foram, de repente, banidos no glorioso presente de um instante que se furta ao
fluxo temporal.
Mais ainda: para que os nautas sejam cumulados em todos os aspectos, depois de
uma banquete magnífico é-lhes facultado o conhecimento da história futura, a
contemplação do sistema cosmológico e uma visão geográfica do globo.
Este mito opõe-se simetricamente e compensatoriamente ao cortejo de dores,
frustrações e desespero que a vida historicamente acarreta, em particular a vida
cheia de privações que os navegantes suportaram durante vários meses.
Exprime a ânsia por uma felicidade absoluta, com a imaginação à idade do ouro ao
paraíso perdido.
Aliás, essa é uma das componentes do espírito humanista, voltado para a utopia:
conceber o homem realizado em plenitude e harmonia, sem as limitações e
contradições que a condição e natureza humanas a cada passo impõem; a
conciliação dos contrários constitui justamente um dos traços dessa visão de
beatitude: a harmonia do amor físico e do amor espiritual; dos gozos sensuais e
intelectuais; o feliz encontro do homem e da natureza; a realização dos desejos
sem que ressaibos de culpa venham ensombrar a felicidade inocente.”
FAOJ e ME, A Poesia Épica de Camões, 1983
Parece-nos expressamente intencional este desejado e merecido encontro de Homens
e Deuses, numa ilha recriada que se faz ao caminho dos navegadores e se prepara
para os seduzir e retribuir na ideia de que o Amor só com Amor(es) vence e se
propaga (Canto IX, estrofe 51, 52, 53)
Parece-nos expressamente intencional o discurso amoroso assumido, cuja dimensão
é valorizada pela adequada procura de uma estética textual.
As palavras e a sua organização no texto transmitem uma mensagem envolvente e
portadora de sentido(s) provocador(es) de renovadas sensações e reflexões por
parte de atentos leitores.
O recurso estratégico a uma adjectivação rica, abundante, repetida e antitética
favorece uma pintura descritiva ao pormenor de quadros idealizados, mas reais,
porque se inscrevem nas nossas referências culturais, apelando à melhor
compreensão e entendimento do que se pretende captar – o Amor nas suas
manifestações mais comuns, mais visíveis e inteligíveis.
Os recursos estilísticos recorrentes e seleccionados com o mesmo objectivo de
clarificar a mensagem, mostram para que se veja e se sinta, nomeadamente,
através de sucessivas e eloquentes comparações, imagens, personificações,
antíteses, repetições, jogos de palavras (trocadilhos), paralelismos,
enumerações e gradação das representações. Servem, igualmente, as intenções de (re)dimensionar
e complexificar o discurso, a utilização da plasticidade do tempo traduzido pelo
gerúndio e conjugação perifrástica, traduzindo um movimento de perpétua sedução,
permitindo olhar o que merece ser sentido e vivido. O discurso está também
possuído de sensações múltiplas, remetendo para a visão, a audição, o olfacto, o
tacto, o gosto, sentidos naturais e humanos que podem ser sensibilizados,
aprofundados e harmonizados para o desafio existencial, para a construção da
felicidade, enquanto processo de transformação susceptível de ser potencializado
pelo Homem.
SUGESTÕES DE ACTIVIDADES PARA LEITORES – ALUNOS
E PROFESSORES:
Cada ser poderá assumir-se como leitor/produtor, agente de amor com uma
intervenção activa para o renascimento do Homem novo, no contexto do Amor
Universal.
A Ilha dos Amores sublima a competência do Homem na sua própria superação e na
busca permanente dos seus ideais, merecendo, pela sua acção, o natural
reconhecimento.
Assim, propomos, a exemplo de Vénus, protectora e promotora da causa dos
portugueses e da sua capacidade de construir por Amor, que te valorizes, também
tu, pessoalmente e com os teus colegas e familiares, no contexto da escola e da
vida, tendo como referência a leitura do Canto IX – Ilha dos Amores - na sua
dimensão transformadora e potenciadora da natureza humana.
Propomos-te a criação de tipologias diferenciadas de textos que tu adequarás às
diferentes propostas apresentadas e a outras que tu próprio sugiras, tendo
sempre como metodologia o debate de ideias contigo próprio e com os outros.
Interessa que o processo de auto e hetero (re)conhecimento seja gerador de
mudança de mentalidades, atitudes e comportamentos no mundo em que vives e se
vive.
Desafiamos-te a ser como os navegantes portugueses, um empreendedor que cumpre,
com sucesso, a missão em que se envolve e ganha o direito ao estatuto de herói
pelo que faz acontecer, fazendo. Seja qual for a missão, o trabalho, o sonho!
Chegamos. Não chegamos. Partimos. Vamos. Somos.
| Texto Narrativo |
- Apresenta-nos a tua Ilha
dos Amores!
- Organiza uma equipa de trabalho
criativo e inovador e procura idealizar com os teus colegas um lugar
feliz, um paraíso na terra, a preservar. Como? O desafio que te
propomos!
|
| Texto Poético |
- Cria uma letra para ser musicada
(ex. rap – rithme and poetry - ou outro tipo de música), tendo como
base o esforço humano, a recompensa (amorosa), o amor não
correspondido e/ou os problemas de ordem social tão contrários ao
Amor...
- Organiza, com os teus colegas, um
jornal mural e/ou uma página na Internet, subordinada à temática
Do Amor, as mensagens devem ser ditas e propagadas na aula, na
escola, na rua! Sê criativo!
|
| Texto Dramático |
- Recria o monólogo de Leonardo,
navegador bem disposto, manhoso, cavaleiro e incompreendido no
Amor...
- Apresenta performance,
teatralizando situações que remetam para a importância do Amor, nas
suas várias manifestações.
|
| Texto Informativo /
Argumentativo |
Do Amor...
- Responde e dá a responder um
inquérito, a integrar
num dossier pessoal, com base na Ilha dos Amores, recolhendo matéria
de discussão e debate que te permitirá reflectir, com os teus
colegas, as problemáticas do Amor, essencialmente, da sua ausência
no Mundo e do modo como reinventá-lo.
- Organiza sessões periódicas de
debate das ideias que te apresentamos e/ou outras, problematizando
as questões do Amor. Partilha as conclusões com a Comunidade
Educativa, de forma criativa.
|
Bibliografia
Os Lusíadas, anotados e parafraseados pelo Doutor Campos Monteiro,
Domingos Barreira - Editor (Porto), 1933, 3ª edição.
J. Oliveira Macedo, Sob o signo do Império - Os Lusíadas, Mensagem,
Edições ASA, Porto, Novembro 2002.
PAIS, Amélia Pinto, Para compreender os Lusíadas, Areal Editores, Porto,
Outubro 1996.
(Vários autores), Leituras de Camões, Imprensa Oficial do Estado, São
Paulo, Brasil, 1982.
|