Leitura intercultural do canto IX de "Os Lusíadas “
tendo como base a leitura da obra de Luís de Camões e o visionamento do filme “Gandhi“



Manuela João
Professora de Inglês da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto



Que analogias encontrar na leitura dos “ Lusíadas “ e no filme, de Richard Attenborough, “Gandhi“, vencedor em 1982 de 8 Óscares da Academia?

À primeira vista parecerá que para além da acção principal decorrer no mesmo espaço físico (no caso dos “ Lusíadas “ a acção central é a viagem de Vasco da Gama para a Índia e no caso de “Gandhi“ apesar de algumas cenas ocorrerem em locais como África e Inglaterra , a maior parte da acção é passada na própria Índia) muito pouco ou quase nada terão em comum.

No entanto e após alguma leitura mais detalhada concluímos que são vários os pontos de contacto.

Embora afastados no tempo (os “Lusíadas“ foram escritos em plena época Renascentista enquanto que o filme se reporta ao período de vida de Mahatma Gandhi, uma das personalidades mais importantes do séc. XX) tanto num como noutro sobressaem valores como a coragem, a honra, a integridade, a fé, o amor, o esforço, a grandeza , a glória, a própria humanidade.

Os “Lusíadas“ surgem com uma obra épica renascentista, cuja génese está no desenvolvimento do comércio, das actividades industriais, das cidades e da burguesia.

Para os renascentistas o Homem é encarado segundo uma visão antropocentrista, assumindo um papel de destaque.

Quanto a “Gandhi“, o filme retracta toda uma herança dos tempos áureos do império colonial Inglês na Índia (o que, mais uma vez, nos remete para a época de Camões, dos descobrimentos e dos Impérios coloniais, embora o império Inglês seja posterior ao português e apresente características específicas) e a luta (pacífica) de um homem pelos seus ideais (tal como a determinação e a coragem do “peito ilustre lusitano“).

O filme, apesar de longo (cerca de 176 minutos) prende a atenção do espectador desde o início até ao final (com a libertação da Índia do domínio Britânico e com o assassinato de Gandhi) não só pelo seu interesse histórico e pelo excelente desempenho dos seus actores, mas sobretudo pelo seu aspecto humano e intemporal (uma vez mais, tal como nos “Lusíadas“) .

Em comum, tanto Camões como Gandhi, defendem ideais pacifistas, são inteligentes, cultos, bons comunicadores, satíricos e vivem uma vida sem riquezas materiais.

Gandhi é, por excelência, um defensor dos ideais de paz, um homem disposto a sacrificar-se por aquilo em que acredita, pela não-violência, o que o leva por sucessivas vezes a recorrer a greves de fome para alcançar o seu objectivo, greves essas que o vão enfraquecendo fisicamente, mas não psicologicamente.

Luís de Camões, por seu lado procura conciliar os valores humanistas (tais como, por exemplo, a oposição à guerra) com os valores nacionais do seu tempo (exaltação do instinto guerreiro dos portugueses aliado ao espírito de cruzada) através de comentários pessoais satíricos condenando vícios como a violência, os abusos, a ambição desmedida, a ociosidade, as guerras inúteis, etc.

Gandhi ao defender os seus ideais humanistas de forma a conseguir a liberdade da Índia, altera radicalmente o seu modo de vida à ocidental, como advogado, passando a viver na Índia com a sua família, viajando pelo país e adoptando um estilo de vida simples, procurando conhecer e integrar-se o melhor possível numa terra onde a discriminação e a prepotência britânica sob o povo indiano predominava.

Desde a conquista de Surate, em 1609, à doação de Bombaim por Portugal como dote de casamento de D. Catarina de Bragança com o rei D. Carlos II, em 1668, a Inglaterra conseguiu assegurar uma base sólida para o seu primeiro Império, no séc. XVIII.

Ao contrário de Portugal que utilizava uma política de assimilação nas suas colónias através de um longo processo de aculturação, a Inglaterra não teve essa intenção assimiladora.

Ela procurava através do poder institucional alcançar sobretudo lucros económicos.

A política imperialista inglesa (como é notório no filme “Gandhi“) evidenciou uma total falta de respeito pela civilização hindu, tentando sobrepor a sua cultura à do povo colonizado (entendido como povo inferior) .

Por outro lado o povo asiático dispunha de uma visão do mundo bem diferente da ocidental, o que dificultou ainda mais qualquer processo de aculturação.

Apesar da existência de hierarquização de castas, o povo hindu funcionava num clima de profunda solidariedade, em cuja cultura Homem e Natureza se misturavam, se diluíam.

Ao longo do filme vamos assistindo, sucessivamente, a alguns avanços, bem como a alguns retrocessos no caminho da liberdade do povo indiano, ao poder e enfraquecimento do domínio inglês na Índia, domínio esse exercido através da força material, espiritual, social e política, bem como ao poder diplomático de Gandhi que através do respeito, sabedoria, persistência, força de vontade, diálogo e recurso a métodos não agressivos conseguiu alterar o rumo da História alcançando a liberdade para o povo do qual ele quis tanto fazer parte.

Outro aspecto a realçar entre “Gandhi” e o episódio da Ilha dos Amores, que dá nome ao Canto IX, reside precisamente no amor.

Esse amor que no caso de Gandhi ultrapassa obstáculos; é o amor ao próximo, ao seu povo, à igualdade, à justiça, à liberdade.

Existe também o amor à família e sobretudo o da sua mulher que sempre o apoiou na sua cruzada, mesmo quando não podiam estar juntos, fisicamente.

Este Amor é um amor desinteressado, desapegado dos bens materiais; é a própria mulher de Gandhi quem o afirma pouco antes da sua morte: “Na filosofia Hindu o caminho para Deus é libertarmo-nos dos bens e das paixões.“. Segundo ela, o seu marido sempre lutou para encontrar o caminho de Deus.
Relativamente, ao Canto IX dos “Lusíadas“, Jorge de Sena (in “A Estrutura d' Os Lusíadas“) afirma que estamos perante “a recolocação do Amor, do verdadeiro Amor, como centro da Harmonia do Mundo”.
 


Tanto numa obra como noutra, o Amor conduz à vitória.
 


Apesar de nos seus escritos e discursos, Gandhi apelar à igualdade entre os indianos e à abolição de preconceitos em relação a determinadas castas, sobretudo aos chamados “ intocáveis “, na realidade, ele nunca renunciou ao sistema de castas hindus e os seus actos poucos frutos deram neste campo.

Numa sociedade extremamente hierarquizada, Gandhi chegou a substituir o nome de “intocável“ por “harijan“ _ “ povo de Deus “ conseguindo que os templos se abrissem a estes, numa tentativa de abolir preconceitos.

O efeito produzido foi todavia perverso, pois o novo nome sugeria mais piedade do que respeito.

Por outro lado, os intocáveis, não perdoam a Gandhi ter tentado destruir Ramji Ambedkar, fundador do primeiro partido político intocável e considerado um herói para os intocáveis da Índia.

Ambedkar pretendia uma mudança radical da situação dos intocáveis , que acabasse com o sistema de castas do hinduismo, ao defender que os intocáveis detentores de cargos públicos fossem eleitos exclusivamente por intocáveis.

Quando em Setembro de 1932, os britânicos pareciam dispostos a tomar partido por Ambedkar, Gandhi manifestou a sua oposição, por temer a destruição do hinduismo.

Actualmente, os “ intocáveis “ continuam a ser aqueles que por laços hereditários pertencem ao grupo da classe social mais baixa entre os hindus, considerados como impuros, proscritos e desprovidos de direitos.

Apesar da constituição indiana proibir a discriminação por motivo de casta, na prática a lei não é aplicada.

Segundo a tradição da cultura indiana, todos os homens nascem desiguais.

Daí a quase total falta de liberdade da maior parte dos membros deste grupo ( o quinto grupo segundo as classes sociais ) , que embora ao longo dos últimos anos tenha conseguido alcançar esporadicamente alguns direitos , sobretudo na vida pública, se veja obrigada a executar as tarefas mais humilhantes e desagradáveis.

Por tudo o que foi referido, facilmente se entenderá porque hoje em dia , muitos indianos provenientes das castas mais baixas, gostariam de ver retirado a Gandhi toda a grandeza e prestígio que o envolve, especialmente aos olhos do povo ocidental.

 

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