LEITURA DA VIAGEM NA LÓGICA COMERCIAL


Maria José Rosa Afonso Matos
Professora de Economia da Escola Secundária da Sobreda
 


I INTRODUÇÃO

Camões narra a viagem de Vasco da Gama às Índias.

De entre os episódios importantes que relata a “ILHA DOS AMORES”, canto IX, é uma utopia, criação mítica do autor para homenagear , com belezas e prazer , os que tantos sacrifícios tinham passado para conseguir chegar à Índia, esse mundo novo.

Graças à sua valentia e heroicidade, os portugueses, tiveram direito à imortalidade!

Tomando o canto IX como ponto de partida, mais precisamente a “Ilha dos Amores”, para o nosso trabalho pluridisciplinar, iremos, numa perspectiva económica, realçar o meio, os factores e os fins desta dimensão comercial.

Se os primeiros grandes objectivos eram a riqueza e o alargamento do território e a difusão do cristianismo, as influências recíprocas provocadas e sentidas quer pelos descobridores, quer pelos “povos descobertos” não são menos importantes. Isto porque as influências quer linguísticas, arquitectónicas, económicas ou outras, perduram até aos nossos dias.


II O MAR / AS ILHAS IDÍLICAS / OS DESCOBRIMENTOS

O mar, o maior elemento que constitui o globo, não nos deixa indiferentes à sua grandeza, mistérios e simbolismos. Sempre foi um espaço lendário, associado a numerosos mitos e lendas, povoado por um conjunto de monstros marinhos e até por ilhas encantadas e utópicas.

O mar é o símbolo da fecundidade e da vida , e uma das grandes metáforas do Amor. Terá sido do mar que surgiram as primeiras formas de vida.

Ainda hoje nos fascinam a beleza natural, a riqueza mineral e a variedade das espécies piscícolas do espantoso mundo submarino.

A literatura e cultura portuguesas estão salpicadas de Mar, cheiram a maresia. Desde o princípio, o mar foi a nossa paisagem quotidiana, interferindo profundamente na psicologia, nas tradições, na literatura, na arte , na economia, na gastronomia, etc.

O mar largo e grandioso, descrito por Camões que ao mesmo tempo admira e teme.

Este Mar, que tantos poetas celebrizaram desde Fernando Pessoa a Miguel Torga e a Sophia de Mello Breyner Andresen.


MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!



Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequen
a.

Quem passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu!

FERNANDO PESSOA



Mar!

Fomos então a ti cheios de amor!

E fingindo lameiro a soluçar

Afagava o arado e o lavrador!


Mar!

Enganosa sereia rouca e triste!

Foste tu quem nos veio namorar,

E foste tu que depois nos traíste!


Mar

E quando terá fim o sofrimento!

E quando deixará de nos tentar

O teu encantament
o!

MIGUEL TORGA


O Infante

Aos homens ordenou que navegassem

Sempre mais longe para ver o que havia

E sempre para o Sul e que indagassem

O mar, a terra, o vento, a calmaria

Os povos e os astros

E no desconhecido cada dia entrassem

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Nascemos , portanto, a ver, ouvir e sentir o mar. Concluída a conquista do solo, o mar passa a ser o grande chamamento, chegara o momento de partir e desbravar o Mar desconhecido, torná-lo no nosso meio de subsistência e riqueza e com essa partida mudaríamos o rumo da nossa História.

Era a hora de um país de marinheiros ir para o cais e encetar a grande viagem de expansão, desbravar o lendário Mar Tenebroso, a partir da ocidental praia lusitana.

Portugal lançava-se, assim, na maior aventura colectiva da sua História.

Desde muito cedo, a construção de barcos tornou célebre a Ribeira das Naus, como refere Fernão Lopes nas suas crónicas. Importamos os melhores especialistas nas ciências náuticas. Depois de assistirmos a uma paulatina e persistente descoberta de toda a longa costa africana surge a concretização (1498)da mais arriscada e mais desejada viagem da Expansão Portuguesa, a Viagem de Vasco da Gama à Índia.

A partir desse feito, Portugal começa a enviar regularmente armadas para o Oriente, conhecida como a “Rota da Carreira da Índia”. Esta rota iria mudar as relações comerciais e culturais do mundo conhecido. Consolida assim, o seu poderio através do povoamento, da construção de praças militares e de feitorias comerciais, das ilhas, das costas africanas e do longínquo Oriente.

Foi esta heróica Viagem para a Índia, símbolo maior da nossa aventura marítima, que Camões contemplou n’Os Lusíadas. Os portugueses elevam-se assim à categoria de heróis lendários, dando um passo de gigante na expansão ultramarina e abrindo novos mundos ao Mundo.

O progresso do conhecimento e florescimento cultural dos séculos XV e XVI receberam o contributo dos Descobrimentos Portugueses e da prosperidade económica então vivida.

A grandiosa empresa dos descobrimentos absorveu muitas e variadas gentes, desde a classe nobre aos mais simples soldados, marinheiros e mercadores.

A par dos grandes objectivos de descoberta e conquista, outra actividade dominou: o comércio de produtos nobres e exóticos, e até de pessoas para o mercado de escravos. As míticas riquezas do Oriente a todos seduziram e com elas, a miragem do enriquecimento fácil, daí que muitos portugueses que foram para o Oriente não iriam servir o império, mas apenas comerciar e enriquecer, segundo as cartas de D. Manuel, “grandes povoações onde se faz trato de especiarias e pedraria”. Além das cobiçadas riquezas minerais, as terras do oriente eram a grande fonte de tecidos finos, madeiras raras e, sobretudo, das apreciadas especiarias: pimenta, canela, cravo, noz moscada, gengibre, ....

Durante décadas, fomos a inveja do mundo Ocidental. A riqueza oriunda das viagens ultramarinas, manifestava-se nos hábitos e trajes, na arquitectura e sumptuosidades gerais.


Vocabulário referente à temática económico-comercial

Nesta perspectiva encontramos, no canto IX d'Os Lusíadas, a partir da 1ª estância até à 94ª, alguns vocábulos significativos:


1ª estância

  • vender-se a fazenda (mercadoria)
  • feitores lusitanos
  • mercadores

3ª estância

  • especiaria
  • trato (contrato)

4ª estância

  • comércio
  • trovões horrendos de Vulcano (canhões)

9ª estância

  • vender pedraria

10ª estância

  • antigos mercadores
  • bons trabalhadores

12ª estância

  • troca de prisioneiros

13ª estância

  • firmar comércio

14ª estância

  • leva alguns malabares (indígenas)
  • leva pimenta ardente
  • flor seca de Banda (casca de noz moscada)
  • a noz e o negro cravo ( noz moscada e cravo da índia)
  • canela

15ª estância

  • cristianização dos africanos

16ª estância

  • para prémio de quanto mal passaram

e outras estâncias como:

23ª

  • empresa antiga

28ª

  • “amam somente mandos e riqueza simulando justiça e integridade

38ª

  • preço
  • poder

59ª

  • preço \ rubi

60ª

  • tapeçaria fina da pérsia

66ª

  • espingardas
  • bestas

68ª

  • lã fina
  • seda diferente

70ª

  • industriosas

71ª

  • indústria

84ª

  • prometem-se companhia eterna em vida e morte

91ª

  • recompensa e prémios repartidos

94ª

  • riquezas



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,


E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal.

FERNANDO PESSOA



III A MOEDA
Conceito- Tomando a moeda como a unidade representativa de valor aceite como instrumento de troca de uma comunidade.

Funções – Graças à moeda o indivíduo pode generalizar o seu poder de compra e obter da sociedade aquilo que a sua moeda lhe dá direito, sob a forma que melhor lhe convém.

Uma transacção comercial classifica-se , na generalidade, em duas fases: a fase da venda e a de compra , a moeda facilita ambas as partes.

Facilita o negócio, na medida em que é difícil encontrar um produto com idêntico valor ao que detém.

As moedas ibéricas mais importantes (excluindo as Árabes) são as posteriores à união do reino de Castela e Aragão (1479) cuja abundância de ouro e prata, vindos do Novo Mundo, deram lugar a novas emissões antigas e mais rústicas. Sobressai o ducado - ou excelente de ouro, surgiu após a reconquista de Granada, tem inscrito os bustos de Isabel I e Fernando II, o católico (1479-1516)

O real criado em 1112 em Portugal e usado de 1500 a 1808 no Brasil.

Os reis usados em Portugal passaram a ser convertidos em (1582): 8 reales = 320 reis.



CONVITE "De Regresso ao Passado..."

Inspirado na temática da rota comercial das Índias e do mar enquanto interposto comercial, propomos-te que dinamizes com os teus colegas e professores uma Feira Quinhentista, onde recries, com criatividade, todo o ambiente e realidade daquela época.

Podes-te imaginar regressado da Ilha dos Amores e, nessa qualidade, um contador privilegiado de histórias e experiências a partilhar nas ruas da Feira, entre animais, compras e vendas, chegadas e partidas, festa, animação, cheiros, sabores e amores...

Imagina... DIVERTE-TE!



Bibliografia
Os Lusíadas, anotados e parafraseados pelo Doutor Campos Monteiro, Domingos Barreira - Editor (Porto), 1933, 3ª edição.
J. Oliveira Macedo, Sob o signo do Império - Os Lusíadas, Mensagem, Edições ASA, Porto, Novembro 2002.
DOMINGUES, Francisco Contente, A Carreira da Índia, CTT - Correios de Portugal, 1998.

 

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